- Às vezes gostava de conseguir sacar alguma palavra aqui de dentro, que te conseguisse fazer ver o que sinto.
- Achas que eu não percebo? - com um gesto rápido puxou-lhe o cabelo para trás da orelha.
- Acho.
- Porquê?
- Porque se não te consigo explicar, como é que podes saber? Tenho a certeza que não sentes o mesmo.
Mordo o lábio devagarinho, para que percebas que esta não é só mais uma conversa daquelas que temos às vezes, quando o Inverno chega.
- Pensei que estivesses a falar do amor, de como gostas que eu te convide para passares estes dias comigo. Isso eu compreendo. Mas agora confundiste-me, o que é que sentes e não consegues dizer?
- Se não consigo dizer...
- Não te conheço assim tão fria.
- Não me chames fria. Não é como se eu estivesse a fazer de propósito, tu sabes que às vezes não dá mais.
- O que é que queres dizer? Não dá mais? - afastou-se ligeiramente, demasiado ligeiramente, a pressão nas costas dela a diminuir - Estás a gozar não estás?
- Vá lá... tu conheces-me. Tu sabes o que quero dizer.
- Não estás à vontade aqui?
- Não estou à vontade sabendo que não sou a primeira a estar contigo aqui. Muito menos sabendo que não sou a única com quem querias estar. Sabes aquele livro que eu estava a ler quando me conheceste? Sinto que foi a única coisa que só partilhaste comigo.
Gostava de saber se não o partilhaste com mais ninguém. Até pode ter servido para te fingires de intelectual para uma ou duas, sei lá. Não me interessa.
Ele deu uma gargalhada seca, enquanto voltava a prender-lhe a mão na dela e lhe apoiava um beijo no pescoço.
- És tonta. Era isso que querias conseguir dizer? Era isso que querias conseguir explicar para que eu entenda? Porque não podes simplesmente pensar que estás comigo e que não precisas de mais nada?
- Eu nunca disse que te amava.
- Por isso mesmo. Nunca me pediste exclusividade porque eu nunca ta dei e acho que sabes que nunca darei a ninguém. Não sou homem para isso.
Odeio-te tanto, porra!
Ela levantou-se quando o vento soprou mais forte e a saia branca voou para trás, raspando-se no tronco da árvore. Ela sorriu, sabia que o som lhe chamaria à atenção e que lhe permitiria sair dali vencedora. Se ao menos fosse isso capaz de a fazer regressar a casa leve.
- Então? O que se passa?
- Vou-me embora.
- Pára de falar comigo com essas frases do tamanho de nada. Não te vou deixar ir embora sem me explicares que raio se passa contigo. Hoje de manhã não tinhas problema nenhum pois não? Hoje de manhã, lá dentro, estavas bem feliz - um sorriso presunçoso - O que se passa agora então?
- Estou farta de ti. Estou farta que dois anos depois ainda não saibas que não gosto das velas em cima da lareira. Estou farta que me digas que amanhã não podes e telefones no último minuto a convidar-me para ir a algum lugar. Nunca pensaste que eu poderia estar a planear uma noite de leitura, sem ti?
- Tu e os teus livros... Há coisas mais importantes cá fora.
- Que tipo de coisas? Tu e os teus passeios supostamente românticos, sempre interrompidos por um desses telefonemas de trabalho que te obrigam a sair à pressa?
- Nunca te queixaste, porquê agora? Porque é que escolhes um momento destes para te passares e te armares em parva? Porque é que não podes só aproveitar...
Vais ser o meu triunfo, já te noto no tom de voz. Já percebeste que vou embora sem implorar que me leves a casa. Vou conseguir porque o tempo de incerteza já foi demais. Vou-me embora agora e tu sabes que não me vais ouvir mais. Finalmente.
- Espera, onde vais? Por amor de Deus, onde pensas que vais?
A saia continuava a esvoaçar mas demasiado longe dele. Os passos dela eram leves mas rápidos, o esquilo no chão quase não teve tempo de fugir. Ele, atrás dela, com os sapatos caros a molharem-se na neve, gritava-lhe para parar.
O carro, finalmente, não aguento mais ouvir a voz deste idiota.
Quando a alcançou ela já tinha a chave meio metida na fechadura do carro e a mão esquerda já a tentar abrir a porta. Com um gesto brusco, agarrou-lhe no braço.
- Não. Não te vais embora, não me vais deixar aqui sozinho. Sabes perfeitamente que só me tens a mim nessa tua vidinha de merda feita de livros e personagens que só tu conheces. E mesmo que vás hoje, vais voltar. Vocês voltam sempre.
Espera sentado, cabrão.
Sacudiu o braço e abriu a porta. Dentro do carro estava quente. Ligou o carro, fez marcha-atrás no caminho estreito e olhou para ele. Tinha um ar derrotado pela primeira vez desde que o conhecia, embora o tentasse esconder com um sorriso convencido.
Espera sentado.
é só o que consigo pensar.
percebo bem quando dizes que começaste a escrever uma coisa com um objectivo e acabou em algo diferente, às vezes é engraçado.
Gostei bastante deste.
Obrigada pelo favorito
Está soberbo. Toma
gostodeti
eeudeti